A Crítica e o Elogio na nossa vida: parte I – a Crítica

A Crítica e o Elogio na nossa vida: parte I – a Crítica

 

 

Tanto o elogio como a crítica têm um papel importante nas nossas relações, papéis e actividades diárias. Porém, muitas pessoas não usam estes comportamentos de forma flexível e ajustada ao momento presente. Muitas delas, não tiveram modelos parentais que lhes ensinassem a elogiar e a criticar de forma saudável e promotora do crescimento. Este primeiro texto assenta sobre o poder da crítica e o seguinte será sobre o elogio.

A crítica, em demasia, tem uma influência negativa no desenvolvimento e manutenção da auto-estima. Tornamo-nos híper conscientes a respeito dos nossos supostos “defeitos”, incapacidades e limitações. Esta perspectiva tende a prejudicar quem somos, como nos relacionamos com os outros e que fazemos. Física e psicologicamente, temos a sensação que não somos bons o suficiente. Que somos diferentes. Que somos menos do que os outros. E se pensar na minha prática clínica, a crítica exagerada pode contribuir para pessoas ansiosas, depressivas, com perturbações alimentares, com problemas no controlo de impulsos, com propensão obsessiva ou com tendência para relações tóxicas, só para dar alguns exemplos (em combinação com outros factores, poderá estar até na génese de Perturbações de Personalidade como a Perturbação Borderline da Personalidade). No essencial, a auto-estima é uma necessidade psicológica que desempenha uma função central no nosso bem-estar. Gostarmos de nós, na medida certa, vai contribuir para os outros também se sintam assim em direcção a nós.

Se olharmos para os modelos parentais que muitos de nós tivemos, constatamos que, por exemplo, fomos educamos na base do “não” e que ele já existe há várias gerações na nossa família. Desde tenra idade, ficamos sensíveis ao que não devemos ou não podemos fazer ou ser. Esta educação pela negativa promove insegurança ao não facultar alternativas nem valorização das pessoas. No texto seguinte, tentarei mostrar como é possível educar sem o recurso permanente e inflexível ao “não” e que impede a sua natural utilidade e necessidade no nosso crescimento.

Assim, quando a crítica é frequente no ambiente que nos envolve, torna-se intrínseca: passamos nós a criticar-nos sem que haja alguém a fazê-lo! Se conseguimos atingir um objectivo com sucesso, atribuímos essa conquista a factores externos e não ao nosso esforço e competência. Sentimos que tivemos sorte, que as condições eram favoráveis ou que os outros tiveram um desempenho muito superior, mesmo assim. Quando não atingimos o que pretendíamos, é automático consideramos que a “culpa” é nossa e que nunca conseguiremos ser bem-sucedidos por sermos incapazes, insuficientes e frágeis. Este tipo de auto-julgamento perpetua o ciclo cognitivo, emocional e comportamento que tende a confirmar a perspectiva inicial negativa.

São incontáveis os exemplos que conhecemos de pessoas com grandes capacidades e qualidades que, por dificuldades na sua auto-estima, não conseguiram ir mais além nas suas vidas. A hetero-crítica transforma-se em auto-crítica e o padrão instala-se: podemos ser muito críticos connosco e tolerantes em demasia com os outros. Ou, também, demasiadamente críticos com eles. Importante salientar que a auto-crítica é, também ela, uma necessidade psicológica importante e que nos permite melhorar quem somos, o que fazemos e como nos relacionamos. É tudo uma questão da dose certa.

Quem critica os outros sem os elogiar, poderá não saber fazer de outra forma. Ou apresenta, também ela, uma baixa-estima que a leva a manter “para baixo” quem a rodeia para não se sentir mal consigo mesma, criando mau ambiente, dúvida e até conflito. E, até, exercer controlo sobre as outras pessoas. Em relações tóxicas pessoas e laborais, existem pessoas que criticam as outras, corroendo o seu valor próprio, para criarem dependência, imprevisibilidade e impedirem a sua autonomia e empowerment.

No essencial, a crítica possibilita melhoria e aprendizagem. Deve ser focada em factos concretos sem se tornar acusação ou culpabilização. A sua frequência e intensidade devem ser equilibradas com as do elogio. Vamos sempre a tempo de aprender a fazê-lo, até breve!

 

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