Gosto de alguém com personalidade borderline... e é o meu filho

Gosto de alguém com personalidade borderline... e é o meu filho

 

 

"O nosso filho tem dezasseis anos, por isso, por vezes, é difícil perceber onde acaba o tradicional comportamento adolescente e onde começa a perturbação de personalidade borderline. Como ele não adere à terapia, provavelmente nem importa. Vivemos as nossas vidas com medo. Dormimos com a roupa vestida e com a chave do carro debaixo da almofada, para o caso de termos de sair de casa por causa das ameaças físicas. Cada vez que o telefone toca à noite, ficamos à espera que seja do hospital. Quando tocam inesperadamente à porta, o nosso pensamento é que seja a polícia e que ele tenha feito uma overdose, tenha tido um acidente de carro, ou que tenha sido apanhado a roubar numa loja.

Já gastámos muito dinheiro com tentativas de tratamento – dinheiro que poderíamos ter usado para que a nossa filha fosse para a faculdade. Não temos ideia de quanto ela está a ser afectada por isto e, honestamente, temos medo de perceber. O nosso filho está envolvido em actividades ilegais e ri-se das nossas tentativas de o castigar. O que é suposto fazermos, fechá-lo no quarto? Quando nos ameaçou fisicamente, conseguimos finalmente que fosse internado. Mas ele depressa aprendeu a jogar e começou a dar as resposta que sabia que deveria dar. Estamos a contar os dias para que ele tenha dezoito anos e ser responsável pelas suas acções. Nós amamo-lo, mas já aprendemos que só isso não chega.”

Bill, in Stop walking on eggshells workbook

Ser pai ou mãe de um jovem ou adulto com perturbação de personalidade borderline será, indubitavelmente, um papel que acarreta uma enorme dose de sofrimento, receios e perguntas. Um dos fantasmas que geralmente assombra as famílias nestas situações transmuta-se frequentemente na pergunta “O que fizemos nós de errado para o nosso filho agir assim?”. Regra geral, este sentimento de culpa não parece ser produtivo nem contribuir para a re-equilibração da situação, constituindo muitas vezes, um peso extra que os pais têm de carregar. 

Como já vimos, em textos anteriores, o desenvolvimento da perturbação de personalidade borderline está relacionado com uma multiplicidade de factores, que se estendem desde os inatos aos ambientais. Daí, esta atribuição de auto-culpa que os pais fazem nestas situações seja, na maior parte das vezes, exagerada e injusta. Efectivamente, poderá ser útil fazer uma reflexão sincera sobre como é ou como se desenvolveu a relação entre pais e filho. Perceber a qualidade dos afectos e dos limites. Da capacidade de se mostrarem vulneráveis mas conseguirem continuar a construir autonomia. De expressarem as suas necessidades mas também se responsabilizarem pela sua satisfação.

Na maior parte das vezes, as dificuldades que os pais identificam na sua relação com os filhos poderão estar ligadas com dificuldades que são transversais na sua vida e, por isso, podem não ser assim tão simples de mudar. Neste caso, a procura de ajuda em contexto individual ou familiar poderá ser de grande utilidade para promover uma mudança ou ajustamento das relações.

Quando confrontados com o ter de lidar com um filho com perturbação de personalidade borderline, os pais também se sentem perdidos. Não sabem o que fazer, nem a quem recorrer. 

A ajuda psicoterapêutica é a primeira linha de intervenção recomendada, podendo ser, ou não, feita em paralelo com ajuda psiquiátrica. O processo terapêutico ajudará no reconhecimento dos sintomas e das crises, promovendo estratégias de regulação emocional e da ansiedade, de forma a aumentar a qualidade de vida da pessoa. A terapia dialética, em particular, pressupõe um exercício de validação e desafio: ao mesmo tempo que, genuinamente, o terapeuta compreende as razões do paciente, desafia-o a experienciar fora do padrão habitual, aumentado a flexibilidade. O recurso à medicação pode ser fundamental para estabilizar a sintomatologia aguda, promover a estabilidade do humor, ajudar a conter o risco e a impulsividade e/ou ajudar no sono. 

A situação apresentada no início do texto é um exemplo grave, que eventualmente necessitaria de medidas mais contentoras como um internamento. Estes internamentos são, geralmente, de curta duração e podem ser um recurso fundamental em situações de risco, em que a impulsividade e/ou a labilidade emocional não permitam um percurso seguro com uma intervenção de ambulatório. 

É, sobretudo, fundamental que os pais percebam que algo de errado se está a passar com o seu filho, que possam reflectir sobre a situação e procurar a ajuda que considerarem mais adequada.

 

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