Gosto de alguém com personalidade borderline... e é o meu irmão

Gosto de alguém com personalidade borderline... e é o meu irmão

 

 

Resolvi visitar a minha cunhada, sobrinhas e irmão com personalidade borderline. Há muito tempo que não o via por causa das suas características, mas como ia passar por perto, achei que devia fazê-lo. Quando comentei o facto de não falarmos há muito tempo, ele começou a gritar comigo, dizendo que nunca me preocupo com ele, que os nossos pais gostavam mais de mim – o que não acho que seja verdade, mas sim que ele lhes causou um grande sofrimento. Ele continuava a discutir e eu não pude fazer nada porque estávamos dentro do carro. Ele ia dizendo que todos esperávamos que ele fosse médico e não um mero técnico de saúde. Depois, vindo do nada, começou a acusar-me de dizer ao fotógrafo do meu casamento (em 1994!) para não lhe tirar fotografias.”

Rochelle, in Stop walking on eggshells workbook

As relações entre irmãos nem sempre são isentas de conflitos ou mágoas, resultantes do processo de crescer e de nos tornarmos pessoas progressivamente mais diferenciadas. Quando a esta complexidade natural se juntam as características de personalidade borderline, o potencial para a relação se complexificar aumenta muito. Ter um irmão com personalidade borderline pode ter muitas facetas: pode significar permanecer-se invisível durante muito tempo, enquanto as atenções e preocupações estão viradas para o comportamento disruptivo do outro. Pode significar crescer com um sentimento de responsabilidade e sentido de cuidar muito superior ao que geralmente existe nas fratrias. Pode significar crescer com um sentimento de zanga e injustiça que modela as relações familiares (e, por vezes, também as demais).

No testemunho transcrito acima, Rochelle reporta algumas acusações feitas pelo seu irmão relativamente a acontecimentos do passado, que ela parece entender como pouco lógicas. De facto, por vezes, temos a ilusão de sermos todos, por defeito, seres lógicos e racionais, mas isso não passa de uma ideia pouco suportada pelo conhecimento que temos do funcionamento do nosso cérebro. As nossas opiniões passam todas por um filtro emocional antes de as avançarmos, mesmo que aparentemente baseadas na lógica. Mas se essas opiniões tiverem uma base emocional, racionalizamo-las pela lógica. Isto é especialmente frequente em pessoas com perturbação de personalidade borderline, colocando-se a hipótese de esse facto estar relacionado com um mau funcionamento do sistema límbico. 

O sistema límbico é o centro emocional do cérebro que regula o nosso instinto de lutar ou fugir, o impulso sexual, armazenando memórias e ajudando a dar significado a essas memórias. Também é o sistema límbico que nos permite suprimir os nossos impulsos emocionais ou instintivos. Por isso, a perda do controlo, do predomínio da lógica, significa que o sistema límbico (ou alguma das suas estruturas, nomeadamente a amígdala) foi completamente sobrecarregado. E, muitas vezes, não nos é possível determinar porque é que determinado acontecimento provoca uma resposta tão intensa, conduzindo a que o sistema de controle falhe.

Ter de lidar com esta intensidade e com a agressividade que, muitas vezes, está inerente a uma resposta emocional, sem o filtro da lógica, é uma tarefa difícil. E ingrata também. No entanto, pode ajudar perceber-se que existe efectivamente um mau funcionamento no sistema que nos permite o controlo. Não na perspectiva de aumentar a tolerância a situações de resposta desadequada, mas no sentido em que a compreensão deste facto o poderá ajudar a ter o comportamento que ajude mais o seu familiar a recuperar o controle, o mais depressa possível.

As relações entre irmãos permanecem ao longo da vida, mesmo que o afastamento tenha sido a escolha. A relação comum que os irmãos têm com os pais faz com que o impacto nunca consiga ser completamente atenuado, apesar da distância que se possa impor.

 

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