Ligue-se!

Ligue-se!

 

 

Pouco tempo depois da Psinove ter sido criada começámos a desenvolver um projeto piloto que envolvia entrevistas e filmagens. Através dos contactos que tínhamos, conseguimos apresentá-lo e trazer uma equipa de produção e filmagem às nossas instalações. A azáfama era grande e, pelo menos para nós, o ambiente era solene e de grande ansiedade. Afinal, estávamos a começar e a dinâmica e exigência eram enormes. Optámos por gravar na sala de reuniões que, para além de ser a maior divisão da empresa, era aquela que melhores condições oferecia em termos técnicos. Enquanto alguns dos colegas gravavam, os restantes juntaram-se numa das salas com um dos elementos da produção.

Depressa, a sala de espera improvisada tornou-se pequena para acomodar tanta gente. Éramos seis pessoas aconchegadas num pequeno espaço com dois cadeirões e um divã. A afinidade entre os que ali se encontravam não era assim tão grande e o ambiente tornou-se imediatamente tenso de tão pouco à-vontade. Nesse momento, e de forma concertada, todos os presentes tiraram dos bolsos ou das malas o seu smartphone e submergiram-se nele. Todos? Não! O elemento da produção, aquele que menos afinidade partilhava com os membros do grupo, observou durante poucos segundos, deixou esgueirar um sorriso e fez-se ouvir de forma suave: “Já viram como estão seis pessoas num espaço tão pequeno e todos se focaram nos telemóveis sem conversar? Impressionante, não é?!” O sorriso abriu um pouco mais enquanto aguardava uma reação dos demais. Ainda estas palavras ressoavam nas paredes e, da mesma forma sincronizada como alcançámos os telemóveis, assim os guardámos, por entre sorrisos envergonhados e expressões de concordância. Nesse momento todos começámos a conversar trocando ideias e piadas num crescendo de animação, contrastante com a esmagadora inibição inicial quase fúnebre, que transformou o momento. Ligámo-nos… uns aos outros.

Esta é uma história que trago frequentemente para a minha vida pessoal e profissional. Considero-a como uma importante lição e um exemplo da perigosidade da tecnologia na socialização. Um exemplo neo-clássico, se me permitem, do recurso ao evitamento como mecanismo de defesa psicológica face a uma situação de desconforto social.

Assim, embora este tipo de tecnologia tenha permitido estabelecer ou restabelecer ligações e relações à distância que estariam perdidas num período pré smartphones, tablets, redes sociais, e-mails, etc., perdemos capacidades no que toca à relação humana. Não só por comodismo (é mais fácil e imediato contactar alguém que está longe do que deslocar-me ou estar sujeito à disponibilidade da outra parte), mas também por uma diminuição efetiva da capacidade de “ler os sinais” que nos são enviados quando contactamos diretamente com alguém, dessensibilizando-nos e diminuindo a capacidade de empatia. Isso conduz-nos ao isolamento e o lema publicitário com mais de duas décadas “ligando pessoas” (numa tradução livre) parece começar a perder significado. Podemos não estar sós, fisicamente, mas vamos ficando sozinhos e com menos competências sociais… mais desligados.

Não pretendo com este exemplo deixar transparecer uma imagem de indivíduo anti-tecnologia. Não o sou, muito pelo contrário. O meu recurso à tecnologia é quase diário e com um enorme ganho, do ponto de vista profissional e pessoal. Considero, porém, que a tecnologia deve ser utilizada em favor do nosso bem-estar. Considero-a um instrumento e devemos evitar sermos instrumentalizados, pois, acaba por afastar-nos não só do que nos rodeia mas, principalmente, de quem nos rodeia. Isso pode ser realmente problemático, encaminhando-nos para as relações superficiais, menos significativas. É uma questão de escolha que está bem na palma da nossa mão ou no fundo do bolso.

Ligue-se, desligando-se!

 

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