Pedro Lima e a dor que não se vê

Pedro Lima e a dor que não se vê

 

 

Ainda estamos todos a recuperar do choque. Habituámo-nos a ter o Pedro como presença assídua nas nossas casas e criámos uma bonita amizade com ele. Não o conhecia pessoalmente e não vejo muita televisão, mas pareceu-me tão fácil gostar dele, como pessoa e como profissional. Ainda que os próximos tempos tragam informações oficiais e mais claras sobre tudo o que aconteceu (e estava a acontecer), parece-me que é tempo de parar e olharmos para a Saúde Mental com olhos de ver. E neste preciso minuto, relembro-me da entrevista de há uma semana com a atriz Sandra José sobre este assunto, a quem muito agradeço o contributo tão genuíno e inspirador.

As necessidades ao nível da Saúde Mental no nosso país são mais do que muitas, todos o sabemos. O consumo descontrolado de psicofármacos também é do domínio público. Mais em concreto, dos diversos fatores políticos, sociológicos, económicos e culturais que estão na origem e manutenção deste problema de saúde pública, optei, hoje, por me debruçar sobre a conceção que cada um de nós tem em Portugal sobre o que é Saúde Mental.

Na verdade, muitos de nós não fomos preparados para lidar com a nossa mente e com a das pessoas que nos rodeiam. Não a conhecemos nem sabemos lidar com ela, demasiadas vezes. Na minha carreira, tenho reparado que muitas pessoas têm diversas ideias contraproducentes para a sua Saúde Mental. Muitas dessas ideias foram passadas de geração em geração assim como os seus efeitos negativos perpetuados. Por exemplo, que não devemos sentir ou mostrar tristeza; que tristeza é depressão; que devemos sempre mostrar alegria e um sorriso nos lábios (mesmo quando não o sentimos realmente); que a depressão só acontece a quem tem tempo disponível ou é fraco (até mesmo o suicídio);  ou que a medicação resolve todas as dificuldades psicológicas. No fundo, falo de falta de informação e da necessidade premente de “psicoeducarmos as pessoas e organizações”. Isto é, muito do nosso trabalho é ajudar as pessoas a perceberem como funcionam e porquê, a processar emocionalmente a sua vida nas suas diversas dimensões, a ampliar a sua consciência sobre a forma como se relacionam consigo e com os outros, a desenvolver processos de aceitação que abrem espaço para a mudança, a abrir mão do que não podem alterar, a implementarem estratégias práticas que as ajudem momento a momento. A serem mais flexíveis e plenas.

Se temos um problema físico procuramos solução para a sua origem e para os seus sintomas. Quando falamos do sofrimento psicológico, ele é bem menos visível. Pode envolver-nos de tal modo que, silenciosamente, nos vai retirando o prazer pela vida. A esta vida. Existem diversos tipos de Depressão estudados, com critérios de diagnóstico específicos e práticas psicoterapêuticas validadas que lhes dão resposta e existem casos onde a psicofarmacologia é um complemento importante à psicoterapia. Para além de precisarmos de intervir sobre as "problemáticas psicológicas" quando já estão instaladas, precisamos de promover a Saúde Mental e apostar na prevenção. A Saúde Mental começa no período intra-uterino e é uma necessidade básica que devemos alimentar toda a nossa vida. 

Agora é tempo, de uma vez por todas, de entendermos que se sentimos algo é por alguma razão. Que os sintomas são mensagens da nossa mente que precisam de ser respeitadas e, diria, acarinhadas. Que as emoções que os causam são manifestações válidas e humanas, dando-nos pistas fundamentais sobre o preenchimento ou não das nossas necessidades psicológicas vitais e, consequentemente, do nosso nível de bem-estar. É preciso descobrir porque algo na nossa vida nos perturba tanto, onde estão as nossas feridas, com quem sofremos e com quem aprendemos. O mundo psicológico é imenso mas, de forma simplificada, a forma como nos vemos resulta muito das nossas relações e eventos significativos, que fazem parte da nossa história e que interagem com a nossa herança biológica. É preciso ter coragem, deixar ir a vergonha, pedir ajuda profissional e abrir espaço para que nos permitamos ser quem somos, aqui e agora. Custe o que custar, é um ganho que ficará para sempre.

Mais do que termos, é preciso sermos. Mais de que parecermos, é preciso sermos. Não me refiro a uma passividade resignada que não abre espaço para a melhoria. Refiro-me, sim, ao desenvolvimento de uma postura activa de aceitação de quem real e profundamente somos. O que é “sermos perfeitos”? Olho para a palavra perfeição como uma das que mais contribui para o sofrimento psicológico. Somos imperfeitos, temos aspetos positivos, outros negativos e outros ainda neutros. Todos. Cabe, também, a todos, psicólogos ou não, contribuirmos para uma nova mentalidade. Para uma nova Saúde Mental.

Um momento de homenagem a Pedro Lima.

 

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