Psicoterapia: O que é e o que pode ser?

Psicoterapia: O que é e o que pode ser?

 

 

Num grupo de psicólogos, a pergunta “O que é a psicoterapia?” foi lançada. Dadas as características do grupo, a resposta não foi tão fácil de começar a elaborar como poderia ser esperado. Foi este o momento que me fez ter vontade de escrever e partilhar este texto.

Numa primeira sessão, costumo fazer a mesma pergunta a quem se senta no cadeirão à minha frente. Se sabe o que é e/ou o que é para ela a psicoterapia. Raramente alguém, que não tenha tido um processo terapêutico anterior, se sente confortável a arriscar uma resposta. Tento assegurar que não precisam de existir respostas certas ou erradas... mas sei, à partida, que é uma pergunta de resposta difícil. É uma resposta difícil de conseguir mesmo de psicólogos. O mundo da psicoterapia é feito de caminhos que variam consoante as características do paciente e do terapeuta, que tornam a relação terapêutica e o processo únicos. Ao mesmo tempo, é fundamental pensar e saber clarificar o que é a psicoterapia. Esclarecer quem não é psicólogo, clarificando o que pode acontecer nas sessões ou como pode um psicólogo ajudar é, também, um passo para desmistificar o nosso papel.

A psicoterapia é um processo criado e pontuado por dois seres humanos com a sua própria gramática relacional, assente em conhecimento cientificamente validado.

Mais detalhadamente, pode ser definida como um processo de desenvolvimento, que envolve transformação, com mais do que a regulação dos sintomas que estão a interferir com a qualidade de vida e com o bem-estar da pessoa. Promovem-se mudanças cognitivas, emocionais e comportamentais, desenvolvimento pessoal e/ou a reorganização da estrutura de personalidade. O processo psicoterapêutico pode, também, ajudar as pessoas a conhecerem-se melhor e a lidarem de forma diferente com a sua vida.

É um processo composto por fases com objectivos estratégicos a alcançar e que pode ter diferentes durações. Algumas “queixas” ou sintomas são mais complexos e podem fazer com que a terapia se prolongue durante alguns anos, especialmente se estivermos a falar de Perturbações de Personalidade, algo mais profundo e estruturante. No entanto, não significa que todos os processos sejam tão longos assim. O fundamental é que existam objectivos terapêuticos acordados entre o paciente e o terapeuta, de forma a que possam ser desenvolvidas e trabalhadas tarefas terapêuticas para os alcançar e, assim, alcançar as mudanças esperadas.

A relação terapêutica (a relação de ajuda, humana, assente na empatia, na validação, no desafio, no não julgamento...) é um elemento central quando queremos definir psicoterapia. A relação entre paciente e terapeuta é marcada por uma dimensão colaborativa (ambos estão de acordo relativamente aos objectivos a atingir e tarefas terapêuticas a desenvolver) e outra de negociação (são capazes de se ajustar em caso de desacordo ou de ruptura). A relação terapêutica é, também, muitas vezes, ela própria capaz de espelhar e de ajudar a modificar os padrões relacionais (disfuncionais) mantidos pelo paciente, na sua vida. Além disso, a investigação em psicoterapia tem mostrado que a qualidade afectiva do laço estabelecido entre o paciente e o terapeuta está relacionada e é preditora do progresso terapêutico.

Por fim, a forma de intervenção (promoção da mudança) em psicoterapia assenta muito na comunicação verbal. No entanto, isto não significa que alguém recorra à psicoterapia apenas para conversar ou desabafar. A forma como se conversa em psicoterapia contribui para a mudança definida inicialmente e é adaptada ao "aqui e agora" da terapia, às necessidades do paciente e ao laço emocional da díade. O terapeuta está atento, momento a momento, ao que o paciente comunica, verbal e não-verbalmente ou até nos momentos de silêncio. A partir dessa observação e diálogo, são propostos exercícios, para a sessão ou entre sessões, de carácter emocional, experiencial, cognitivo ou comportamental.

Em psicoterapia, o papel do terapeuta será ajudar o paciente a ajudar-se em detrimento de “dar conselhos”. Os conselhos podem estar na base da construção de uma relação de dependência e parecem colocar o terapeuta numa posição de “especialista” relativamente o paciente. O paciente é sempre quem melhor se conhece e, por isso, em psicoterapia, o papel é ajudar o paciente a descobrir os padrões que afectam o seu bem-estar, criando auto-consciência e terreno fértil para a mudança e para a aplicar em diferentes áreas de vida e/ou em diferentes situações percebidas como desafiantes.

 

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