Vida longa ao medo

Vida longa ao medo

 

 

Esta é a altura do ano em que a escuridão ganha terreno no dia-a-dia, convidando a um certo recolhimento e talvez até introspeção. É no ambiente criado por esta diminuição de tempo de luz solar que celebramos (com as devidas diferenças de tradição) a morte, os mortos e a incerteza da vida.

Uma música de que gosto muito começa com estes versos: “Um brinde ao medo, por nos manter alerta...” (em tradução livre). Lembro-me muitas vezes desta frase, quando por razões pessoais ou profissionais me confronto com esta tão temida entidade, numa espécie de curiosidade sobre a sua natureza. Esta emoção, básica mas tão complexa, acaba por ser bastante criativa nas formas como se manifesta, podendo utilizar como veículo um conjunto imenso de sintomas, que nem sempre deixam óbvia a sua origem: o medo pode mostrar-se através de ansiedade, depressão, agressividade, passividade, uma coisa e o seu contrário. O medo pode impelir à fuga, pode congelar, pode calar ou pode gritar. É o medo. São os medos.

Há, no entanto, uma espécie de medo que é mais universal que as outras, que nos trespassa e que atravessa a quase totalidade da nossa vida. Estou a referir-me ao medo da morte, à angústia existencial de ter de dar sentido a algo que um dia seguramente terminará. Apesar de esmagador e assustador, este medo é essencial para nos mantermos vivos e é através da sua experiência equilibrada que conseguimos valorizar a vida que temos. Exige um equilíbrio sempre inconstante entre o que já vivemos e o que temos ainda para viver, num exercício de negociação com a natureza das coisas. Se este medo é sempre positivo? Não, não é. Algumas vezes pode atirar-nos para a fogueira do vazio, da insignificância e do sem sentido. Mas sem ele também não existe uma experiência plena de vida. O medo saudável faz-nos agir, faz-nos refletir e faz-nos tomar decisões com sentido interno. O medo tem uma função e tem um antidoto.

Nesta altura do ano é comum crianças e adultos disfarçarem-se de entidades sobrenaturais, celebrando o medo. O medo do sobrenatural, o medo do desconhecido, o medo do que fica inacabado. Todos temos alguns fantasmas, que vêm diretamente do nosso passado enquanto história – ainda que uns tenham uns irreverentes poltergeist, outros verdadeiras hordes demoníacas. O encontro com esses fantasmas faz-se no escuro e no recolhimento individual, numa dança em que é o medo que marca o ritmo. O medo faz-nos atentos e expande a nossa vida, desde que nunca deixemos de procurar o seu antídoto. Para o Verão chegar, teremos de atravessar o Inverno. Para vivermos plenamente, temos de saber que a morte existe. Brindemos ao medo.

 

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