Voltar atrás a cada momento

Voltar atrás a cada momento

 

 

Hoje, quero partilhar convosco uma das passagens literárias que mais me tocou, retirada de um livro que me trouxe muito. Trata-se de um excerto do livro “Eu, Yalom: memórias de um psicoterapeuta”, de Irvin D. Yalom, um psicoterapeuta brilhante que escreve, neste livro, as suas memórias enquanto profissional e, sobretudo, enquanto pessoa que está na base desse profissional. Esta passagem que vos trago mostra a sua reflexão sobre um outro pensamento:

"«Pois, à medida que me aproximo mais e mais do fim, viajo num círculo cada vez mais próximo do início. Parece ser um dos tipos de planos e preparativos do caminho. O meu coração é tocado, agora, por muitas recordações que há muito tinham adormecido…»

Essa passagem comove-me tremendamente: de facto, à medida que me aproximo do fim, também eu me vejo a regressar cada vez mais ao início. As memórias dos meus clientes desencadeiam com uma frequência cada vez maior as minhas, o meu trabalho acerca do seu futuro invoca e perturba o meu passado e dou comigo a reconsiderar a minha própria história. A minha memória do início da minha infância sempre foi fragmentada e acredito que, provavelmente, tal se deve à minha infelicidade inicial e à pobreza em que vivia. Agora, que já cheguei aos oitenta, cada vez mais imagens do início da minha vida intrometem-se nos meus pensamentos."

Ao ler esta passagem, é fácil identificar, de forma muito directa, a grande influência que cada paciente tem neste psicólogo, um exemplo do impacto real que cada paciente tem em nós, psicólogos. O caminho da psicoterapia é algo intenso e que apenas resulta na interacção e colaboração entre psicólogo e paciente. O impacto de ambos em ambos é parte do processo e deve ser potenciado e utilizado a favor do mesmo.

Nesta passagem, o autor, já na casa dos 80 anos de idade, não se cinge, apenas, à sua larga idade para justificar a intromissão de várias imagens do seu passado nos seus pensamentos. Aliás, pela relação que descrevo anteriormente, bem como pela forma como vivemos cada momento, todos os dias, esta intromissão mostra ser uma constante da vida, uma procura incessante de justificar e tornar lógico, com o passo seguinte, aqueles que foram os nossos passos anteriores. Quase como se fosse uma forma nossa de nos livrar da culpa e responsabilidade de algum caminho mal escolhido, de um objectivo que se foi desviando do seu final planeado. A tendência que temos de perceber se estamos a ir na direcção certa, mesmo que seja tantos anos após o realizar dessa escolha.

A premissa da acção-reacção, percebendo que somos parte integrante desse processo, onde cada passo nosso segue o anterior e antecipa os que ai vêm, é a nossa forma de encarar o mundo e o que vai acontecendo. Cada decisão é resultado de outras e decide o que virá. A tendência de voltar atrás será, então, importante para percebermos esse caminho e mais facilmente nos tranquilizarmos pelas escolhas feitas. De igual forma, será um ponto de ordem sobre o nosso bem-estar, onde tentamos perceber se estamos onde queríamos e se fizemos o que seria por nós suposto. Ou seja, funciona como uma balança da nossa acção e que nos ajuda a perceber o que falta e o que já foi alcançado.

No entanto, muitas das vezes, pode ser sinónimo de ansiedade, se nos leva a antecipar o que aí pode vir com medo do que já aconteceu, ou mesmo, depressão, se não conseguimos sair do ciclo de culpa e responsabilização pelas vivências e escolhas anteriores que tivemos. Assim, esta ferramenta de voltar atrás a cada momento pode ser adaptativa para nós, se a usarmos no sentido de perceber a nossa regulação de bem-estar ou pode ser não adaptativa, se nos fizer duvidar de cada passo por não conseguirmos deixar de pensar nos anteriores, gerando sintomas de ansiedade e/ou depressão.

Em terapia, o voltar atrás acontece como ferramenta fundamental de obtenção de informação sobre o paciente mas, também, como forma de perceber o caminho que o levou até ponto actual em que a pessoa chega à terapia. Os contornos, as escolhas, as experiências, a sua maneira de lidar com as suas emoções, o que funcionou e o que não funcionou, a base dos sintomas e das queixas apresentadas, são tudo informações a que podemos aceder quando conseguimos voltar atrás de forma adaptativa. Por outro lado, o equilíbrio deste caminho e a aceitação de que já não podemos mudar o que já passou representa um pilar na regulação emocional e no que diz respeito a lidar com os sintomas que advêm da não aceitação do caminho que foi percorrido.

Voltar atrás a cada momento é algo normal da nossa experiência de vida. O importante será voltar atrás de forma saudável, que nos permita usar a informação obtida a nosso favor para a nossa adaptação, permitindo-nos processar e resolver a nossa percepção emocional desse caminho, levando à sua aceitação.

 

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