“Ano Novo, Vida Nova”, mas não logo!

“Ano Novo, Vida Nova”, mas não logo!

 

 

A passagem de ano é encarada por muitos como um ponto de viragem. São variadas as pessoas que aproveitam este momento para reflectirem sobre as suas vidas, em particular, sobre o que conquistaram e perderam no ano que passou, e sobre o que gostariam de ver mantido e mudado no ano que se segue.

A par com esta reflexão, a experiência de transição (não só temporal) contemplada naqueles 10 últimos segundos do ano, ou mesmo antes, parece trazer consigo sentimentos de esperança e coragem para enfrentar o novo ano, a oportunidade para recomeçar ou melhorar a vida que se tem. “Ano Novo, Vida Nova”, “Que a paz, a saúde e o amor estejam presentes todos os dias deste novo ano!”, e “Que o novo ano que se inicia seja repleto de felicidades e conquistas”, são algumas das frases e intenções que se ouvem nesta altura e que ilustram tão bem a fé, por vezes desmesurada, que é depositada naqueles primeiros instantes, dias ou meses.

Esta esperança e coragem podem ser também característicos de outras fases ou momentos de transição que ocorrem ao longo da vida de uma pessoa. Por exemplo, na celebração de um novo ano de vida, no início de novas relações, na mudança das dinâmicas familiares, na transição para um novo ano lectivo, no iniciar de um percurso académico ou profissional, na mudança de emprego, ou mesmo numa simples mudança de casa.

O estímulo e força que estes momentos ou fases de passagem representam, são fundamentais quando, por interveniente destes processos mais reflexivos (chamados por alguns de “pontos de situação”), incentivam as pessoas a tomar atenção às necessidades físicas e psicológicas que precisam de ver satisfeitas, a redefinir prioridades, a estabelecer antigos e novos objectivos e perceber como estes podem ser concretizados, e, de um modo geral, a compreender quem e como se gostariam de ver numa nova fase.

No entanto, apesar de ser incontestável a importância de tempos em tempos receber-se este tipo de estímulo, ou mesmo de “reiniciar o sistema”, tal pode ter o efeito contrário se este mesmo estímulo for apenas encarado como um mero impulso, contentor de uma força rapidamente esgotável no tempo. Com isto, o que quero dizer, é que parece que muitas vezes se não vemos as tão desejadas resoluções a serem alcançadas (muito) perto do tempo em que as pensámos ou idealizámos – por exemplo, não ver as resoluções de ano novo contempladas nos primeiros dias ou meses do ano -, parece ser fácil perder a novamente a força para acreditar que estas podem vir a ser concretizadas. Assim, em oposição ao que se espera, e obedecendo a um ciclo que se vai subtilmente criando, instala-se novamente a desesperança e inércia, pelo menos até a um novo momento de transição, a um novo ano, a uma nova oportunidade.

De alguma maneira, nestes períodos voltamos a ser crianças que precisam de ser ensinadas e relembradas da importância do adiamento da gratificação. Por outras palavras, perceber que aquilo que fazemos em determinado momento pode não ser logo recompensado, mas sim num outro lugar e tempo mais longínquo. Trata-se de confiar nos pequenos e grandes passos que se dá, nos sacrifícios que se faz, e na capacidade de guardar e economizar o que se tem, para obter algo maior no futuro, a desejada recompensa.

Recentemente saiu um livro do psicólogo Jordan B. Peterson, chamado “12 regras para a Vida – Um antídoto para o Caos”, que explica de forma muito pertinente aquilo de que se trata o adiar da gratificação e como este é inevitável à luz da noção de tempo e causalidade (da acção humana e voluntária) pelo qual todos nós nos regemos. Embora o autor reconheça a dificuldade de adiar o prazer, o que queremos instintivamente, este salienta com base na evolução e comportamento humano, a relevância de inibir, controlar, regular e organizar impulsos imediatos para, assim, proteger o futuro e o contexto que nos rodeia.

“Ano Novo, Vida Nova”, sim! No entanto, não é demais relembrar que, se as mudanças e novidades não forem logo encontradas, tal não significa que estas não aparecerão! Que a resolução deste ano seja aprender a estender a força e esperança no tempo, no ano, e perceber que o que se deseja poderá chegar mais tarde, podendo mesmo chegar por vezes num formato maior do que aquele que se idealizou.

 

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