Emoções desagradáveis também existem e precisam de ser validadas

Emoções desagradáveis também existem e precisam de ser validadas

 

 

As emoções resultam de fenómenos cerebrais muito diferente dos pensamentos. Estas têm uma linguagem única e um papel preponderante nas nossas vidas.

Inerente ao funcionamento humano está a capacidade para sentir vários tipos de emoções. Emoções como o medo, a alegria, a tristeza, a zanga ou a repulsa resultam de processos cerebrais básicos e ajudam-nos a responder de forma adaptativa e rápida a variadas situações da vida. Entre outras funções que estas emoções podem desempenhar, frequentemente o medo ajuda a perceber situações de ameaça/perigo e incita a proteção (seja por fuga ou confrontação); a alegria permite identificar e integrar momentos de prazer, conquista e/ou realização; a tristeza permite processar a perda (seja de que tipo for) e reajustar a vida a tal; a zanga convida-nos a conhecer os limites que existem, perceber quando estes estão a ser ultrapassados, e a agir defensivamente para que estes sejam/se mantenham estabelecidos; e a repulsa, ajuda a discriminar e afastar/evitar aquilo de que não gostamos. 

Partindo do pressuposto que todas estas emoções básicas, de uma forma ou de outra, têm uma função na nossa vida, nos fazem conhecer, viver e/ou sobreviver, porque é que tendemos a validar ou aceitar apenas algumas? “Não fiques triste”, “Tens de ser mais positivo”, “Teres medo não adianta de nada”, “Deixa de ser dramático/a”, “Devias olhar para isso com outros olhos, de outro ângulo”, “Agarra-te às coisas boas”, “Tem calma”, entre outras, são algumas das frases que aparecem muitas vezes no formato de auto-instruções, ou na forma de conselhos para outros, quando se está perante emoções mais desagradáveis de ser sentidas.

Embora reconheça que a maior parte das vezes estas frases surgem com “a melhor das intenções”, para que nos sintamos melhor ou para ajudar o outro nesse sentido, muitas vezes estas expressões ou a busca rápida de soluções, sugerem que não é tão legítimo sentir-se triste, assustado ou zangado, quando estas são apenas respostas emocionais instintivas, automáticas e adequadas a situações específicas e momentos. Indirectamente, é como se passassem a mensagem de que não é tão válido estar verdadeiramente como nos sentimos ou aceitar a vulnerabilidade como parte da vida. São propostas permanentes a se estar incoerente com o que se sente, consigo mesmo. 

Não digo que seja fácil sentir este tipo de emoções, não digo que seja fácil ver alguém que nos é querido a chorar ou mesmo a levantar a voz. Pelo contrário, compreendo como momentaneamente, diante tais experiências, se pode instalar de forma rápida a necessidade de “pôr um pano por cima”, de evitar e contornar essas mesmas sensações, de desligar o botão e substitui-las por experiências mais agradáveis. No entanto, a longo prazo, o facto de não serem sentidas e processadas nas situações e momentos que assim o pedem, podem fazer com que estas tendam a voltar de uma forma mais intensa, frequente e pouco ajustada. 

Já para não falar de quando a auto-instrução, conselho ou solução não são interiorizados e acabam por ser só convites a constatar de que não estão como outrora tiveram ou como gostariam de estar (e.g., mais calmos, mais alegres). Por exemplo, dizer a alguém que está ansioso para ter calma, quando este se apresenta num estado completamente contrário, poderá aumentar o desconforto na medida em que se apercebe ainda mais que não se consegue acalmar e que não está a ter controlo sobre si.

Assim, uma das formas mais úteis para mostrar empatia pelo nosso próprio sofrimento ou pelo sofrimento do outro, expresso através de emoções mais desagradáveis de serem sentidas, é aceitar que este existe, validá-lo e naturalizá-lo à luz dos acontecimentos que tal exigiu ou que tal exige.

Tirar o foco da mudança, da substituição e interrupção, e tentar ter uma atitude mais compreensiva e exploratória, tanto consigo próprio como com o outro.

 

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