O Luto em tempo de Pandemia

O Luto em tempo de Pandemia

 

 

O luto é um processo natural associado a perda (de alguém ou de algo). É, na realidade, um processo de introspeção em que nos voltamos para dentro em busca de restruturação e adaptação a uma nova realidade. Ao aceitarmos essa nova condição, permitimos que o processo de luto se faça, desempenhe a sua função curativa e que possamos prosseguir.

Isto não significa que nunca iremos sentir a falta ou deixar de sentir dor pela perda. Sentir a dor da perda faz parte de quem vive uma vida com significado. Também não significa ultrapassar ou esquecer, mas sim, curar. Sentimos dor porque amamos e se amamos significa que o nosso coração guardou e que não vamos esquecer.

É um processo doloroso e moroso, repleto de sensações desagradáveis, de tristeza, dor, revolta ou confusão, com que teremos de contactar e que poderá não decorrer de formar linear. Assim, é natural alternar entre estados de tristeza e dor e estados de aceitação ou até alegria. Poderemos permitir-nos distrações, entretenimentos ou rir. Faz parte do processo e envolve um misto de sentimentos resultantes da perda que podem ser sensações negativas, diretamente resultantes da perda em si (e das condições em que ocorreu) ou positivas, fruto das vivências significativas e boas recordações. Poderão existir momentos de dormência ou ausência. É natural! Permita-se a essas sensações. Permita-se tempo para se adaptar. Permita-se viver.

Embora possa parecer que seria melhor não ter de fazê-lo, vivenciar estes tipos de sentimentos torna-nos mais fortes, mais sensatos e com maior compaixão. Ensina-nos a relativizar as dificuldades e a valorizar a vida.

Nos tempos que vivemos, com a pandemia de Covid-19, o Estado de Emergência Nacional e as diretrizes que determinam o distanciamento social, alterou-se a forma como a doença e a morte são abordadas. Tendencialmente, viramo-nos para quem nos é significativo em busca de suporte e de conforto, quando perdemos alguém. Reunimos família e amigos para chorar, para partilhar a dor, para partilhar os bons momentos vividos com quem partiu. Procuramos o calor de um abraço ou a segurança de uma mão que nos segura. Procuramos paz espiritual e emocional através de rituais (religiosos ou não) tradicionalmente característicos das famílias, independentemente das crenças ou religiões, muitos deles com um papel emocional e instrumental importante, e que, na sua ausência, aumentam a dor e a ansiedade e prejudicam o processo de luto.

Nestas condições, ganha um especial destaque, a importância das tecnologias no reforço do suporte social, seja através do telefone, videochamadas, mensagens de texto ou redes sociais. E elas devem continuar, de forma progressiva, após o levantamento das restrições, enquanto meios facilitadores do retorno à normalidade, pois será efetivamente uma realidade diferente.

A pandemia determinou mudanças com um impacto profundo no luto e na forma como gerimos os sentimentos que envolve. E considerando que a despedida é um fator de grande importância no processo de luto, o facto de estarmos perante uma doença altamente contagiosa, poderá privar-nos deste passo de tão grande necessidade, o que poderá acarretar um forte sentimento de culpa. Para agravar, as medidas de distanciamento social, como já referido, restringem ou impedem que família e amigos se juntem no velório, no funeral ou num serviço religioso. Quem estiver internado ou de quarentena/isolamento, pode ver-se impedido de estar junto dos seus entes queridos ou mesmo de estar presente nas cerimónias ou obter conforto após as mesmas.

Neste sentido, existem algumas estratégias que visam facilitar a adaptação a esta nova realidade:

1.      Pratique o autocuidado: Alimente-se corretamente, mantenha-se hidratado e descanse. Estes são os princípios básicos. Não exerça demasiada pressão sobre si mesmo. Lembre-se que é um processo e que demora o seu tempo.

2.      Demore o seu tempo: permita-se passar pelas suas emoções sem se apressar ou pressionar. A seu tempo irá conseguir aceitar a perda e, embora o seu ente querido esteja ausente fisicamente, terá sempre as suas memórias, as alegrias que passaram juntos e o amor partilhado.

3.      Contacte com família e amigos: Embora o distanciamento social obrigatório torne mais fácil fechar-se, esforce-se por contactar família e amigos. Relembre e peça para relembrar, só ou em conjunto. Os meios tecnológicos disponíveis atualmente facilitam o contacto. Escreva uma carta sobre a vida do seu ente querido e qual o impacto que teve em si e peça a outros que façam o mesmo.

4.      Crie um memorial online: As redes sociais desempenham um papel fundamental nesta ação. Na impossibilidade de uma presença física para prestar condolências numa cerimónia fúnebre, um memorial com fotografias e/ou textos numa rede social permitem não só divulgar o acontecimento a outras pessoas com quem seria difícil ou mesmo impossível contactar, como também permitir que outros se manifestem e expressem os seus sentimentos reagindo e comentando a sua publicação.

5.      Peça ajuda especializada: “Podemos fazê-lo sós, mas não temos de fazê-lo sós”. Se sentir que não está a conseguir suportar o fardo da perda sozinho, contacte um especialista. Existem linhas de apoio especializado e a maioria dos técnicos credenciados podem ajudá-lo através de sessões terapêuticas online.

6.      Escreva um diário: Escrever ajuda a estruturar o pensamento e torna visíveis os acontecimentos, as suas emoções, os seus esforços e pontos fortes na resolução e no processo de cura.

7.      Medite: Meditações como o mindfulness ajudam-no a focar o momento presente e a regular ansiedade o stress ou a zanga que possa estar a sentir.

8.      Defina quais os aspetos da pessoa que perdeu que gostaria que fizessem parte de si: Esse é um dos maiores tesouros que quem partiu poderá ter deixado para si. Deve guardá-lo e passá-lo a outros para que esses ensinamentos ou qualidades sejam perpetuadas nas memórias futuras.

9.      Procure os significados da sua vida: As perdas levam-nos a uma busca interna de quem somos, de quem queremos ser e do impacto que temos nos outros.

Permita-se viver!

 

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